24 de novembro de 2013

 
" - É artista? pintor? poeta?
- Não; sou simplesmente um atónito.
Ergui a cabeça e olhei-o sem lhe responder.
- Para mim, continuou ele, o facto essencial e pasmoso das coisas é elas realmente serem. O facto de qualquer coisa ser é milagroso. O outro facto milagroso é estar eu aqui, a ter consciência que elas são. Gozo este horror com todas as formas da minha alma. Conheço bem que nem as coisas são como parecem, nem eu o que me sinto ser. A natureza transcende-se a si própria. Eu sou muito mais do que sou. Se isto lhe parece um paradoxo, a culpa é do Universo, que é paradoxal. - A Natureza é espírito, porque é uma ideia minha. Mas é uma ideia minha de uma realidade de que essa ideia é uma ideia. Por mais ligeira que seja a vista, só vê o lado da realidade que está criado para ela.
Para mim, a Natureza é alma. A aurora, a tarde, a noite - o próprio dia - são para mim fenómenos espirituais. Olho-os como coisas minhas. Se na minha vista parcial dela é tão bela a natureza, como não será em sua solidez espiritual?"

 
 
Fernando Pessoa, 'O Mendigo e Outros Contos'