7 de junho de 2011


(...)
Não, nenhum Deus… Quero estar só. E um dia virá sim, um dia virá em mim à capacidade tão vermelha e afirmativa quanto clara e suave. Um dia o que eu fizer será cegamente, seguramente, inconscientemente pisando em mim e na minha verdade. Tão integramente lançada no que fizer que seja incapaz de falar. Um dia virá em que todo o meu movimento será só criação e nascimento. Eu romperei todos os nãos que existem dentro de mim e provarei a mim mesma que nada há a temer. Que tudo que eu for será sempre onde haja uma mulher com o meu principio. Erguerei dentro de mim o que sou e a um gesto meu minhas vagas se levantarão poderosas – água pura submergindo a dúvida, a consciência. E quando eu falar serão palavras não pesadas e lentas, não levemente sentidas, não cheias de vontade de humanidade, não o passado corroendo o futuro! O que eu disser soará fatal e inteiro. Não haverá nenhum espaço dentro de mim para eu saber que existe tempo e nem para eu saber sequer que estou criando porque então viverei! Só então viverei maior do que na infância, serei brutal e mal feita como uma pedra serei leve e vaga como o que se sente e não se entende. E que tudo venha e caia sobre mim porque basta me cumprir e então nada impedirá o meu caminho até a morte-sem-medo. De qualquer luta ou descanso eu sempre me levantarei forte e bela como um cavalo novo.”

 


(Trechos do livro 'Perto do Coração Selvagem', 
Clarice Lispector).