11 de junho de 2013


"Dentre as coisas mais importantes que urdem dentro de nós estão os encontros adiados – trate-se de lugares ou de pessoas, de quadros ou de livros. Existem cidades pelas quais anseio tanto, que é como se estivesse, desde o início, predestinado a passar nelas toda uma vida.
Usando uma centena de subterfúgios, evito ir até elas, e cada nova oportunidade de uma visita que se me apresenta intensifica em mim de tal maneira a sua importância, que se poderia pensar que só por elas ainda estou neste mundo, que, se não fosse por elas sempre a me esperar, eu teria já de há muito perecido. Existem pessoas sobre as quais gosto que me falem, tanto e com tanta avidez que se poderia pensar que, afinal, sei mais delas que elas próprias. Contudo, evito ver-lhes um retrato, esquivo-me de qualquer imagem visual, como se pesasse uma pesada e justa interdição sobre o conhecer-lhes o rosto.Há, também, pessoas que durante anos encontro ao passar por um mesmo caminho, sobre as quais reflito – pessoas que se me apresentam como enigmas que me são dados a desvendar – e às quais não dirijo palavra: passo mudo por elas, como elas por mim; olhamo-nos com um ar inquiridor, mantendo os lábios solidamente selados. Fico imaginando uma primeira conversa e excita-me a idéia de todas as coisas inesperadas que ela reserva para mim.Por fim, existem pessoas que amo há anos, sem que elas possam suspeitar disso. Envelheço, torno-me cada vez mais velho, e deve certamente parecer uma ilusão absurda a idéia de que algum dia eu venha falar-lhes de meu amor, ainda que, na imaginação, viva continuamente da expectativa desse momento divino. Sem esses meticulosos preparativos para o futuro, eu não poderia existir: eles são para mim, se perscruto a mim mesmo com rigor, não menos importantes do que as surpresas repentinas que surgem como que do nada e nos subjugam de imediato."
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Elias Canetti, (História de uma vida/ 1931-1937)