18 de agosto de 2013

Antes que venham ventos e te levem 
do peito o amor — este tão belo amor, 
que deu grandeza e graça à tua vida —, 
faze dele, agora, enquanto é tempo, 
uma cidade eterna — e nela habita. 

Uma cidade, sim. Edificada 
nas nuvens, não — no chão por onde vais, 
e alicerçada, fundo, nos teus dias, 
de jeito assim que dentro dela caiba 
o mundo inteiro: as árvores, as crianças, 
o mar e o sol, a noite e os passarinhos, 
e sobretudo caibas tu, inteiro: 
o que te suja, o que te transfigura, 
teus pecados mortais, tuas bravuras, 
tudo afinal o que te faz viver 
e mais o tudo que, vivendo, fazes. 

Ventos do mundo sopram; quando sopram, 
ai, vão varrendo, vão, vão carregando 
e desfazendo tudo o que de humano 
existe erguido e porventura grande, 
mas frágil, mas finito como as dores, 
porque ainda não fincado — qual bandeira 
feita de sangue, sonho, barro e cântico — 
no próprio coração da eternidade. 
Pois de cântico e barro, sonho e sangue, 
faze de teu amor uma cidade, 
agora, enquanto é tempo. 

Uma cidade 
onde possas cantar quando o teu peito 
parecer, a ti mesmo, ermo de cânticos; 
onde possas brincar sempre que as praças 
que percorrias, dono de inocências, 
já se mostrarem murchas, de gangorras 
recobertas de musgo, ou quando as relvas 
da vida, outrora suaves a teus pés, 
brandas e verdes já não se vergarem 
à brisa das manhãs. 

Uma cidade 
onde possas achar, rútila e doce, 
a aurora que na treva dissipaste; 
onde possas andar como uma criança 
indiferente a rumos: os caminhos, 
gêmeos todos ali, te levarão 
a uma aventura só — macia, mansa — 
e hás de ser sempre um homem caminhando 
ao encontro da amada, a já bem-vinda 
mas, porque amada, segue a cada instante 
chegando — como noiva para as bodas. 
Dono do amor, és servo. Pois é dele 
que o teu destino flui, doce de mando: 
A menos que este amor, conquanto grande, 
seja incompleto. Falte-lhe talvez 
um espaço, em teu chão, para cravar 
os fundos alicerces da cidade. 

Ai de um amor assim, vergado ao vínculo 
de tão amargo fado: o de albatroz 
nascido para inaugurar caminhos 
no campo azul do céu e que, entretanto, 
no momento de alçar-se para a viagem, 
descobre, com terror, que não tem asas. 

Ai de um pássaro assim, tão malfadado 
a dissipar no campo exíguo e escuro 
onde residem répteis: o que trouxe 
no bico e na alma — para dar ao céu. 

É tempo. Faze 
tua cidade eterna, e nela habita: 
antes que venham ventos, e te levem 
do peito o amor — este tão belo amor 
que dá grandeza e graça à tua vida.
Antes que venham ventos e te levem
do peito o amor — este tão belo amor,
que deu grandeza e graça à tua vida —,
faze dele, agora, enquanto é tempo,
uma cidade eterna — e nela habita.

Uma cidade, sim. Edificada
nas nuvens, não — no chão por onde vais,
e alicerçada, fundo, nos teus dias,
de jeito assim que dentro dela caiba
o mundo inteiro: as árvores, as crianças,
o mar e o sol, a noite e os passarinhos,
e sobretudo caibas tu, inteiro:
o que te suja, o que te transfigura,
teus pecados mortais, tuas bravuras,
tudo afinal o que te faz viver
e mais o tudo que, vivendo, fazes.

Ventos do mundo sopram; quando sopram,
ai, vão varrendo, vão, vão carregando
e desfazendo tudo o que de humano
existe erguido e porventura grande,
mas frágil, mas finito como as dores,
porque ainda não fincado — qual bandeira
feita de sangue, sonho, barro e cântico —
no próprio coração da eternidade.
Pois de cântico e barro, sonho e sangue,
faze de teu amor uma cidade,
agora, enquanto é tempo.

Uma cidade
onde possas cantar quando o teu peito
parecer, a ti mesmo, ermo de cânticos;
onde possas brincar sempre que as praças
que percorrias, dono de inocências,
já se mostrarem murchas, de gangorras
recobertas de musgo, ou quando as relvas
da vida, outrora suaves a teus pés,
brandas e verdes já não se vergarem
à brisa das manhãs.

Uma cidade
onde possas achar, rútila e doce,
a aurora que na treva dissipaste;
onde possas andar como uma criança
indiferente a rumos: os caminhos,
gêmeos todos ali, te levarão
a uma aventura só — macia, mansa —
e hás de ser sempre um homem caminhando
ao encontro da amada, a já bem-vinda
mas, porque amada, segue a cada instante
chegando — como noiva para as bodas.
Dono do amor, és servo. Pois é dele
que o teu destino flui, doce de mando:
A menos que este amor, conquanto grande,
seja incompleto. Falte-lhe talvez
um espaço, em teu chão, para cravar
os fundos alicerces da cidade.

Ai de um amor assim, vergado ao vínculo
de tão amargo fado: o de albatroz
nascido para inaugurar caminhos
no campo azul do céu e que, entretanto,
no momento de alçar-se para a viagem,
descobre, com terror, que não tem asas.

Ai de um pássaro assim, tão malfadado
a dissipar no campo exíguo e escuro
onde residem répteis: o que trouxe
no bico e na alma — para dar ao céu.

É tempo. Faze
tua cidade eterna, e nela habita:
antes que venham ventos, e te levem
do peito o amor — este tão belo amor
que dá grandeza e graça à tua vida.

 
 
Vento Geral-Thiago de Mello